Clóvis de Barros Filho.
A felicidade é perfeitamente inútil, a vida boa é perfeitamente inútil.
"Viver é uma roubada espetacular", o que atrapalharia muito a vida são duas coisas: o divertimento e o enfado.
O que seria o divertimento? Você deseja o que não tem, de repente você consegue o que você tem, aí você não deseja mais e aí você passa a desejar outra coisa.
O divertimento seria assim trifásico: QUERER o não que se tem, conseguir o que se deseja antes e buscar outra coisa que agora se deseja.
O divertimento é marcado por um pêndulo: ou você deseja e não tem, ou você tem e não deseja mais e depois volta a desejar o que não tem.
Assim, atitude exemplo: você tem sede > desejo por líquido > bebe água > saciedade > fim do desejo
desejo de fazer xixi > desejo de ir ao banheiro e assim vamos, desejando o que não temos e buscando a saciedade, matando os desejos anteriores que promoveram o surgimento de novos desejos.
Perceba que a lógica do divertimento é a lógica do saco sem fundo.
É a lógica da saciedade impossível, é a lógica de que invariavelmente está faltando algo em você e você invariavelmente busca aquilo que te faz falta.
O segundo problema da vida é o tédio ou enfado e seria caracterizado por uma rede de utilidade.
O útil é sempre entendido como uma coisa boa e o inútil como uma coisa ruim. Perceba quando uma coisa é útil o seu valor está fora dela, o colírio é útil porque limpa os olhos, o veículo é útil porque permite o seu deslocamento pra um lugar onde você não está.
Tudo que é útil tem o seu valor fora. O primário é útil pra chegar ao ginásio, o valor do ginásio está no colegial, o valor do colegial está na faculdade o valor da faculdade está no emprego e assim você percebe que toda a utilidade faz com que o valor das coisas estejam fora dela. Portanto o inútil tem seu valor em si.
Felicidade é perfeitamente inútil porque ela vale por ela mesma. Quanto mais na nossa vida encontrarmos coisa que tem valor em si mesmo, e portanto são inúteis, a chance de vivermos melhor aumenta.