sábado, 10 de julho de 2010

Sem êxito

De portas fechadas, havia um silêncio que a consumia completamente por dentro, deixando-a totalmente ilesa diante de todas as decisões que naquele momento a cercavam. Mas aquele silêncio não era maior e nem poderia ser comparado ao silêncio que a separava dele,esse sim dissimulava diretamente todas as suas determinações.
Às vezes ficava na sacada, esperando que talvez ele passasse e assim acenasse como quem diz um oi habitual. Nada acontecia. Por vezes em que o telefone tocara teve a esperança que fosse ele, pra pegar as roupas velhas em casa ou pra lembrá-la de tomar os remédios diários. Muitas vezes ele ligou apenas por preocupação ou obrigação. Mas a dois meses atrás, sábado, manhã quente, quando  ligou, ele aparentava mais frio e restringiu a ligação em apenas: tome os remédios. Nem se quer perguntou se ela estava bem, se estava feliz. Oito semanas depois e não mais ele retornaria a ligação.  Achava estranho, mas não resolveu procurar, ser um peso, afinal depois de terminados que obrigação tinha ele de ficar lembrando-a de tomar remédios, a doença era sua e ele nada tinha com isso.  Com o telefone na mão, resolveu ligar, mas uma esfinge a rodeada, que desculpa usaria? “Olha, venha buscar suas roupas” Isso poderia soar deturpado. Não, melhor não fazer nada. Silêncio.
Perdeu a conta das vezes em que sentava no sofá e ficava observando a televisão desligada, recordava do quanto ele era apegado na televisão e do quanto isso a incomodava todos os dias. Por alguns segundos ela queria que ele estivesse ali vendo televisão enquanto ela assistia a beleza dele. Brigas e discussões nunca tiveram fim entre os dois, todo dia palavras distorcidas criavam conflito entre eles. E isso, não era falta de amor, eles se amavam tanto mas tanto que não havia espaço pra guardar tanto amor depois que ele foi embora.
Brigavam por qualquer motivo, mas a culpa era sempre dele que expressava demais, ficava perto demais e não dava espaço pra ela fazer outras coisas que não o envolvesse. Nos últimos dias estava se tornando chato, falando repentinas vezes ao dia o quanto a amava, o quanto queria estar perto dela pra sempre. No inicio ela gostava, mas depois parecia que não mais ouvia o que ele dizia e só via a face dele mexendo repetindo as mesmas palavras. Na sua mente só passava uma coisa: “Já sei que você ama, da pra parar?”. Com o tempo ele foi percebendo o quanto estava deixando o relacionamento dos dois chato e cansativo. Um dia  ela acordou com o som do trem que passava a duas quadras de sua casa, era domingo e o engraçado era que aquele som nunca tinha lhe incomodado antes, mas especificamente naquele domingo quebrou seu sono pela metade. Olhou pro lado e ele não estava na cama. Desde então não mais o viu, apenas ouvia sua voz todos os dias pela manhã lembro-a do remédio. Ela, sempre muito orgulhosa, nunca perguntou porque ele partiu o porque deixou a maioria de suas roupas pra trás. Queria aparentar-se forte diante da situação, claro que as brigas a afetava também, mas achou um abuso ele partir sem falar nada. A verdade é que achou ousado da parte dele porque ela, apesar de todas as brigas, nunca pensou em deixar tudo pra trás. E a única palavra que o definia pra ela era egoísta.  Achava que ele era egoísta por desistir do amor dos dois.
De vez enquanto, acordava pelo meio da noite assustada com qualquer barulho na rua, achava que ele tinha voltado. Foram passando-se meses e nada dele ligar. Num sábado a tarde, decidiu quebrar o gelo, ligou pra ele. O celular estava desligado, achou estranho e continuou  ligando repentina vezes, sem êxito desistiu.  O que ela não sabia era que a ligação foi feita tarde demais e que o seu orgulho impediu que ela ouvisse a voz dele pela última vez. A verdade é que ele estava carinhoso porque sabia o que o destino estava reservando pra ele, não tinha muito tempo de vida. Não queria que ela parasse de apreciar a sua beleza quando ele ficasse feio e de cama. Saiu de casa, ela nunca o procurou. Agora ela entendia as palavras tão entediantes dele. Sabia que estava partindo. Enquanto a mente dela cogitava mil possibilidades o seu coração só batia no ritmo de uma palavra: continue. Haveria mais silêncio dali em diante.


Magalhães, Monique. “Sentimentos Induzidos e Perpétuos”.

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