O livro da dor e do amor / J.-D. Nasio
p.60
A representação mais singular do meu amado, a que será superinvestida
imediatamente depois do seu desaparecimento, é a representação do
que eu não posso ter, mas também do que não quero ter: a satisfação
absoluta. O amado representa um limite, representa o meu limite.
Assim, não só o amado me dá a minha imagem, garante a consistência
da minha realidade e torna tolerável a minha insatisfação, mas também
representa o freio para o desmedido de uma satisfação absoluta que eu
não poderia suportar. Em resumo, o eleito — que qualificamos de
amado, mas que também pode ser odiado, temido ou desejado —
representa a minha barreira protetora contra um gozo que eu considero
perigoso, embora o saiba inacessível. Pela sua presença real, imaginária
e simbólica, ele é, no exterior, o que o recalcamento é no interior. Essa
barreira viva, que me evita os gozos extremos e me garante uma
insatisfação tolerável, não me impede por isso de sonhar com o gozo
absoluto. Pelo contrário, o meu eleito alimenta as minhas ilusões e me
incita a sonhar.
Assim, compreende-se por que se sofre quando o outro eleito
desaparece. Com ele, desaparecem as insatisfações cotidianas e toleráveis
dos meus desejos, e eu me torno então todo insatisfação ou, o
que dá no mesmo, todo satisfação. O que a morte do outro acarreta de
essencial é a morte de um limite. Assim, o trabalho do luto é a
reconstrução de um novo limite.
*